EVOLUTIOM (2011), PINTURA DE AUGUST DI LENA
EVOLUTIOM (2011), PINTURA DE AUGUST DI LENA
EVOLUTIOM (2011), PINTURA DE AUGUST DI LENA

sonhei o fim do mundo
melhor do que está sendo
na minha imaginação
seria fácil
seria rápido
um cometa nos acertaria
e dizimaria as espécies
o sol explodiria
e faleceríamos de frio em pouco tempo
um vulcão entraria em erupção
e devastaria tudo e todos lenta e lindamente
e as lágrimas seriam frutos de um momento de beleza
as mesmas que derramamos quando as cortinas se fecham após um grande espetáculo
no entanto
elas surgem como uma correnteza de dor e desespero
fomos atingidos por um desastre muito maior
a apatia
aceleramos o processo de deus
e resolvemos
que nós mesmos implodiríamos o planeta
só pra provar a liberdade e a sapiência dos sapiens
que nasceu
cresceu
dizimou
cultivou
reproduziu exponencialmente
organizou as ideias
representou o mundo
segregou…


Manifestante ferido com bala de borracha em confronto em Curitiba (Foto: Giuliano Gomes/ PRPRESS)

Nota: A primeira versão deste poema foi publicada no dia 04 de maio de 2015 nas mídias sociais. Ele trata do conflito entre a Polícia Militar e professores que aconteceu no dia 29 de abril durante uma manifestação destes contra um projeto proposto pelo então governador Beto Richa que estava sendo votado na Assembleia Legislativa do Paraná e fazia mudanças na previdência dos funcionários públicos da educação.

Curitiba já foi terra de poesia
de Leminski, Kolody e companhia
mas onde tem richa, tem racha
e desrespeito com quem ensina

a capital já foi palco de espetáculos
de músicas, danças, filmes e…


CAIXA DE PANDORA, PINTURA EM ACRÍLICO DE GEORGE RURUA

estou na corda bamba da consciência
abaixo, o abismo
o id
as mãos suam
as pernas tremem
o coração acelera
o cu pisca
o equilíbrio dá lugar ao acaso
como um barco à vela
viajo para onde o vento empurra
pra onde o diabo sopra
minha visão turva
percorre o espaço
e finda numa paisagem fúnebre
tudo aspira à morte
(até o que está vivo)
o velório é
na verdade
de meus glóbulos de visão
que
em legítima defesa
pintam tudo de tinta preta
para me esconder na escuridão
temo a luz
porque ela pode revelar a cara de meus demônios
e suspeito que
em vez de socá-los com fúria
eu queira beijá-los com vulgaridade
camuflo-me nas sombras
recusando o sol, o céu, os sorrisos, a esperança
e tudo mais…


OCEAN, PINTURA DE AGOSTINO VERONI

eu vi a poesia!
ela estava entre minhas mãos
tão voraz
e
tão fugaz
quanto uma catarata
que cai
cai
c a i
e molha
e afunda
e afoga
enquanto afaga

e eu tentei tanto
apanhá-la e aprisioná-la
num papel com meus traços e rabiscos
mas me escorreu entre os dedos
que lambi com tesão
pra sentir o sabor de todas as coisas

então
percebi que a poesia
é uma vertigem lúcida
é rio que corre
corre
c o r r e
e que escrever
é tentar parar a água

Nota: este poema está presente no meu livro o olho, publicado em 2020 pela Editora Madrepérola.


Ah!, como amo tuas formas. Miscigenação resultante de riqueza (e pobreza e dominação e exploração) histórica. Tua complexidade é apaixonante, avassaladora, e tua simplicidade é a vitória dos derrotados.

Tem para todos os gostos: árcades, românticos, parnasianos; modernistas, concretistas e contemporâneos. Estás na língua de todos, desde os burgueses soberanos até os pobres suburbanos.

Tens o poder de embaralhar todas as réguas e compassos, fazendo com que um elefante e eu caibamos numa mesma página e até que tenhamos o mesmo peso e tamanho. Tu és a passagem e a própria viagem para terras inalcançáveis. …


Alarme. Celular. Soneca. Travesseiro. Alarme. Celular. Soneca. Travesseiro. Alarme. Celular. Atraso. Pressa. Chuveiro. Toalha. Cueca. Camisa. Calça. Sapato. Celular. Pão. Café. Celular. Cigarro. Celular. Moto. Celular. Loja. Celular. Cliente. Olhadinha. Ridícula. Celular. Café. Celular. Amiga. Conversa. Patrão. Cretino. Aumento. Celular. Cliente. Venda. Prestação. Cartão. Comissão. Café. Cigarro. Moto. Almoço. TV. Celular. Ligação. Namorada. DR. Cigarro. Estresse. Cigarro. Moto. Loja. Cliente. Olhadinha. Vadia. Cliente. Olhadinha. Desgraçado! Estresse! Celular. Café. Planilha. Vendas. Lucro. Comissão. Relatório. Reunião. Patrão. Cretino. Aumento. Reunião. Números. Rentabilidade. Vendas. Chatice. Números. Rentabilidade. Vendas. Chatice. Números. Rentabilidade. Vendas. Chatice. Expediente. Happy hour. Amigos. Cerveja. Cigarro. Risadas. Deboches. Fofocas. Patrão…


STRAITJACKET (CAMISA DE FORÇA), PINTURA DE KRIS GEBHARDT

EU GRITO ATÉ QUE MINHAS PREGAS VOCAIS RESSEQUEM
ATÉ CHEGAR À ROUQUIDÃO
E CONTINUO GRITANDO
MESMO QUANDO ACABA A VOZ
PORQUE SÓ ASSIM CONSIGO EXPRESSAR MINHA VIOLÊNCIA

MEUS PULSOS ESGUIOS E FRÁGEIS
NÃO TÊM FORÇA SUFICIENTE
CONTRA AS PAREDES QUE PROTEGEM
ESSE INIMIGO INVISÍVEL

APANHANDO TODOS OS DIAS SEM PODER REVIDAR
ME REVOLTO CONTRA MIM MESMO
E DISPARO GOLPES PARA DENTRO
NA TENTATIVA DE ATINGIR
O QUE FORA NÃO PUDE ACERTAR

BANHADO PELO SANGUE DESTE COMBATE ETERNO
E
VENCIDO POR EXAUSTÃO
RESTA APENAS A RESIGNAÇÃO

DIAGNOSTICADO COMO SUBVERSIVO
E
LOBOTOMIZADO
AGORA ACATO AS ORDENS DO ALGOZ
E
ACEITO UMA RECEITA DE COMPRIMIDOS
PARA ADEQUAR MEU COMPORTAMENTO
E SUPORTAR ESTA DOR
QUE NENHUM DOUTOR PÔDE OU QUIS TRATAR

DENTRO DE UMA FALSA DEMOCRACIA
INCONFORMIDADE É PATOLOGIA
LOUCO É QUEM ESTAVA SÃO

Nota: este poema está presente no meu livro o olho, publicado em 2020 pela Editora Madrepérola.


Cansei de mim, da minha imagem. Que raiva! Tantas limusines por aí e nasci Fusca — além de tudo, com a lataria amassada e motor pifado. Tenho a beleza de uma flatulência durante a ceia. Decidi renovar minha estética patética. Fiz uma maracutaia e saqueei uma loja de produtos de beleza. Entre eles, uma loção corporal 100% artesanal. Chique, né? Me banhei e utilizei tudo que furtei. Aproveitei do luxo para tentar ser menos esdrúxulo. Resultado? Continuava horroroso. Raivoso, fui ao boteco do Joaquim comprar chocolate em pó — por identificação, peguei o mais barato, que tinha a pior embalagem. Aceitei que sou feio, mas, pelo menos, tô cheiroso e com o bucho cheio.

Então, deixe seus claps (de 1 a 50). :)
Você também pode conhecer meus poemas e livros de poesia pelo Instagram @jeancarlobarusso ou nesta página: https://sobre.vivendoapoesia.com.br/jean-carlo-barusso



O conceito de um “bom texto” varia, entre outras coisas, de acordo com o leitor/espectador, pois cada um tem preferências por temas, gêneros, estilos e também por experiências estéticas e sensoriais — afinal, palavras também são desenhos, imagens, sons, tato (contato com o papel ou qualquer superfície de fundo) etc.

Há uma grande quantidade livros que têm o intuito de ensinar a “escrever bem” ou, no mínimo, a escrever de uma maneira determinada, bem como movimentos que propõem regras para as produções literárias, como é o caso do OuLiPo, que surgiu na França no século passado. …

Jean Carlo Barusso

27 anos, poeta, publicitário e professor em formação. Dois livros de poesia publicados. Instagram: @jeancarlobarusso

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